9 setembro, 2016

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Em um dia desses no metrô, graças à tatuagem de uma mulher sentada perto de mim, notei como estamos despreparados para receber elogios de pessoas estranhas. Isso porque a tatuagem dela, um manequim incrível cheio de detalhes, era igual a de um homem que vi no ano anterior também em um vagão de metrô. Eu achei o desenho tão lindo que decidi pará-lo para elogiar.

 

O homem estava distraído e eu coloquei a mão em seu braço para que ele me escutasse. É claro que a sua primeira reação foi um olhar bravo, desconfiado. Ninguém gosta de ser tocado de repente, até porque não sabemos a intenção alheia. Sua tatuagem é maravilhosa, eu disse. O olhar assustado, então, se transformou em um sorriso sem graça, que permaneceu com ele até o momento em que desceu na estação. E eu saí com a sensação de que fiz o dia de alguém mais leve.

 

Eu nunca me esqueço também do dia em que estava em uma loja qualquer no shopping e uma garota, que estava do lado de fora, entrou e me parou apenas para dizer o quanto tinha amado minha bota marrom de cano alto. Depois disso, eu passei a amar minha bota trinta vezes mais e elogiar os outros com frequência.

 

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Em um dia desses no metrô, graças à tatuagem de uma mulher sentada perto de mim, notei como estamos despreparados para receber elogios de pessoas estranhas. Isso porque a tatuagem dela, um manequim incrível cheio de detalhes, era igual a de um homem que vi no ano anterior também em um vagão de metrô. Eu […]

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12 junho, 2016

Hoje é dia dos namorados. Mas para quem? Definitivamente, não para o meu relacionamento. Peço desculpas a todo funcionário da parte de marketing que achou eu me sentiria contemplada ao colocar um casal de mulheres em sua propaganda. Sinto muito, mas não é assim que a banda toca, que a sociedade funciona. Isso não é suficiente. Se o Dia da Mulheres para todas nós é sinal de resistência, o dia 12 é mais um dia de luta para quem não se encaixa na heteronormatividade.

Dia dos namorados LGBT

Esse seria um dia lindo, se todo e qualquer casal pudesse compartilhar mensagens fofas nas redes sociais, sair para jantar sem receios ou sequer assumir o seu relacionamento. Sim, viva o amor, seja como ele for. Mas ao mesmo tempo em que muitos pensam assim, a outra metade – ou mais – não é nada receptiva. E não estou falando somente de agressões físicas ou verbais – homens que se acham bem vindos no meio de duas mulheres, estupros corretivos ou olhos roxos. Estou falando do funcionário da floricultura que me olhou com cara de desentendido quando eu disse o nome da minha namorada. Da minha prima que achou essa era só uma fase para irritar a família. Da diretora da minha antiga escola que se sentiu no direito de querer ligar para os meus pais para contar que eu estava com outra mulher. Ou da minha amiga que falou que me adora, mas não concorda.

 

Deve ser ótimo você poder beijar o seu namorado na plataforma do metrô depois de semanas ou meses sem se ver. Poder trocar o status de relacionamento no facebook sem ter que se perguntar antes se isso não te atrapalharia. Imagina ser livre para dizer o nome da pessoa com a qual namora em uma entrevista de emprego quando veem a sua aliança. E como é não duvidarem do seu relacionamento quando alguém pede o seu número ou tenta te beijar na balada? Como você se sente levando sua namorada em todo e qualquer evento familiar? Como é não ter ninguém duvidando dos seus sentimentos, arranjando desculpas para o seu relacionamento?

 

Ser um casal um hétero é maravilhoso. E o dia dos namorados é para vocês. Na televisão, na rua, nas lojas. Eu não posso comprar uma caneca que se encaixa para a minha namorada em um shopping convencional. Às vezes, nem um cartão. Eu tenho que desconfiar de toda pessoa que passa, repara que namoro uma mulher e fica encarando. Eu preciso me preservar o tempo inteiro, com medo de reações negativas com as quais eu não sei lidar, com medo da falta de empatia.

 

Beijar na rua para vocês é sinal de afeto, para nós é ato político. Colocar uma foto no instagram com seu namorado é mostrar o seu amor, para nós é levantar bandeiras. Comprar presentes para vocês parte do pressuposto da surpresa, para nós da dificuldade em nos sentir representados. O amor de vocês é lindo, o nosso é para incomodar, cutucar o conservadorismo que sempre tenta nos colocar de lado. O meu amor é uma ameaça ao sexismo, patriarcado e socialização de gênero, o seu é fofinho.

 

Que fique registrado aqui o meu feliz dia dos namorados para os casais que ainda não conseguiram assumir que namoram, para os que já ouviram que seu relacionamento é para chamar atenção, que sofreram na escola, na rua, em casa. Para os casais que escutam como se devem comportar e o que devem falar para não serem gays “demais”, para os que precisaram mentir e omitir, para os que não se sentem contemplados pela mídia e na política, que escutaram que devem morrer ou vão para o inferno. Para os casais que querem e lutam por respeito, segurança, liberdade e voz. Para os que morreram ontem no atentado em Orlando, para os que já derramaram sangue por não se esconder. Para os que sabem que o nosso amor não cabe nesse dia dos namorados, porque para ele acontecer a nossa força e vontade é muito maior. Porque o nosso amor é resistência. Feliz dia dos namorados.

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Hoje é dia dos namorados. Mas para quem? Definitivamente, não para o meu relacionamento. Peço desculpas a todo funcionário da parte de marketing que achou eu me sentiria contemplada ao colocar um casal de mulheres em sua propaganda. Sinto muito, mas não é assim que a banda toca, que a sociedade funciona. Isso não é […]

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17 maio, 2016

Carta às minhas professoras de ballet

Querida professora,

 

Lembro que os meus momentos preferidos da semana eram sempre os mesmos: começavam quando eu vestia a sapatilha de ballet e terminavam quando eu a guardava na bolsa. Coincidentemente, você sempre estava lá. E me mostrou o caminho mais doce e desafiador que, até então, eu enfrentei. Hoje, eu não tenho mais encontros semanais com a barra e o espelho, mas se me considero uma bailarina de alma, é por você.

 

Há quem diga que o ballet é muito rígido, o que não deixa de ser verdade. Mas ao mesmo tempo em que eu nunca fui fã de regras, eu me encontrei na hora em que descobri o que era realmente um relevé e um passé. Senti como a dança era capaz de alterar meu humor, minha mente, meu corpo. Me mudar. Estava feito. Quando a música começa a tocar e você percebe que está no lugar certo, o ballet deixa de ser uma distração e passa a ser parte da sua essência.

 

Consequentemente, você foi quem me abriu as portas para esse mundo de entrega, esforço, satisfação. Juntas, descobrimos o quanto eu sou capaz e fomos mesclando, aos poucos, força e suavidade. Você não me deixou desistir, sempre queria mais. Porque sua intuição percebia que eu poderia lhe dar aquilo o que esperava. Assim, quanto mais você puxava, mais eu me surpreendia com o meu corpo, comigo. Parecia que você sabia mais do que eu mesma até onde eu conseguiria chegar – apesar do tremor nas pernas que não paravam.

 

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Querida professora,   Lembro que os meus momentos preferidos da semana eram sempre os mesmos: começavam quando eu vestia a sapatilha de ballet e terminavam quando eu a guardava na bolsa. Coincidentemente, você sempre estava lá. E me mostrou o caminho mais doce e desafiador que, até então, eu enfrentei. Hoje, eu não tenho mais […]

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