DESCOMPLICANDO O VEGANISMO
RECEITAS VEGANAS
Transição para o veganismo


19 setembro, 2018

Eis que entra uma vegana no MasterChef Profissionais, a Drica Avelar. Todos os ativistas se animaram e pensaram: uhul, alguém para falar sobre veganismo em rede nacional e cozinhar algo além de cogumelos e batatas. Mas o pensamento não parou por aí. Nós também colocamos uma série de expectativas em cima de uma única pessoa. Passamos a enxergá-la como a porta do voz do veganismo, sem nem ao menos ela ter se candidatado ao posto. A próxima terça chegou e, com ela, caiu uma chuva de ignorância, grosseria e, supostas, decepções. Por quê? Ela cozinhou carne.

 

Decidi, então, ligar a câmera e bater um papo reto e sério com você, aí do outro ladinho. Se aconchegue, abra o coração e dê o play, sim? ❤

 

Vegana no MasterChef, minha opinião 🌱

 

 

Dito tudo isso no vídeo, vamos começar pelo básico: o programa não é vegano. Não é uma competição sobre quem faz a melhor receita com tofu e castanha de caju. Tem carne, muita, por sinal. Tem vaca entrando no programa, carne de jacaré, ovo de avestruz e partes de corpos de animais que você nunca imaginou que alguém, em sã consciência, comeria. A Drica entrou ciente disso. Eu e você sabemos disso. Então, por que achamos que algo mudaria nas regras? Nós somos tão especiais assim? Por que esperamos que a Drica fosse um exemplar de perfeição e calculasse antecipadamente todos os passos dela dentro do programa, no mercado e em frente ao fogão?

 

Ah, mas aí você pode relembrar a principal queixa de muitos veganos: a Drica cozinhou bacalhau em uma prova na qual não precisaria, necessariamente, cozinhar carne, onde a ideia era criar um receita sem sal. O fato de ter escolhido um prato com ingredientes de origem animal ao invés de um prato vegano foi um desserviço à causa. Ok, e o kiko? Quer dizer que a Fafella, por cozinhar carne para o filho, é menos vegetariana? Que se eu passar requeijão na torrada para minha namorada sou menos vegana?

 

Em seu canal do YouTube, a Drica conta como a pressão, o medo e a correria a fizeram falhar. Me doeu tanto ouvir isso… Porque, Drica, você não falhou. Você não precisa se justificar. Você não deve explicação aos veganos e a ninguém. Deixa a polícia vegana se estressar sozinha. Você está, sim, levando o veganismo a mais pessoas e inspirando muitos por aí. Eu que peço desculpas por ter ficado brava de início e concordado com a parcela que se decepcionou. Agora, eu sei que não adianta pregar compaixão se a gente não para um minuto para se colocar no lugar do outro.

vegana no masterchef - drica

Quando entrei no curso técnico, por exemplo, das 40 pessoas na sala, só a professora sabia o que significava o termo veganismo. O restante ficou com cara de desentendido quando me apresentei. Mas foi a partir daquele momento que 40 pessoas entenderam que existe uma alternativa aos produtos de origem animal. Foi com aquele “oi, meu nome é Luana, sou feminista e vegana” que 40 pessoas foram apresentadas a um estilo de vida mais afetivo, consciente, ético e transformador.

 

No curso, eu ainda precisei participar de aulas práticas com carne e fazer seminários sobre o leite. A nutrição tradicional não é vegana, afinal. Eu me incomodava? Sim. Da mesma forma que, para Drica e outros cozinheiros veganos, não deve ser fácil lidar com produtos de origem animal. Mas era algo que eu me propus a fazer, algo que eu queria muito concluir, assim como a Drica fez a inscrição sozinha, sem ninguém a obrigar, e sonha em ganhar o prêmio – e é melhor ela ganhar e usar o dinheiro em prol da causa ou outro que vai investir em mais crueldade?

 

Quando a gente entende que o mundo não é vegano, o X da questão é aprender a se adaptar e ainda manter seus ideais intactos. Se eu tivesse desistido, talvez, a minha amiga não virasse vegetariana e as professoras não teriam levado o assunto para dentro da sala de aula. Se a Drica saísse do programa, teria perdido a oportunidade de dizer ao Fogaça: não, eu não refoguei o cogumelo na manteiga porque a indústria leiteira é uma das mais cruéis.

 

Um outro detalhe que precisamos ressaltar por aqui: a Drica não é uma enciclopédia ambulante de veganismo. Ela não é a Jeovegan. Não é a obrigação dela veganizar o Brasil, ok? O veganismo é uma escolha que, apesar de impactar no coletivo, parte de uma consciência individual. Você não pode dizer que está decepcionado porque ela não pegou um alto falante e saiu dizendo no meio da prova: não é sua mãe não é seu leite, carnistas não passarão. Não pode se frustrar porque, em meio a pressão, ela pegou um bacalhau, enquanto a Ana fazia a contagem regressiva.

 

Assim como no feminismo, existem vertentes diferentes no veganismo e nenhuma está mais certa que a outra ou é melhor. São formas diferentes de encarar o movimento e está tudo bem. Se, no fim do dia, o objetivo é acabar com a exploração animal, quem somos nós para separar veganos nutella e veganos raiz?

 

Eu não gostaria que as pessoas que estão na transição para o veganismo sentissem que precisam se justificar a todo instante ou, então, que não podem errar. Ir contra o estilo de vida da maioria massiva da sociedade não é tarefa fácil. O veganismo é, sim, lindo e gratificante, mas o caminho até ele é árduo e existem muitas forças puxando a nossa resistência para trás. Por isso, o que precisamos é de apoio. De alguém que escute sem um tom de julgamento, que estenda a mão e não aponte o dedo. De um pontinho de luz para nos guiar, não palavras que machucam.

 

Drica, eu espero que você trilhe um longo caminho no programa e se sinta confortável para continuar impactando positivamente. Cada frase, cada prato e cada atitude podem ser a gota que faltava para alguém assistindo dar um próximo passo. E, por isso, te admiro pela força de ser a primeira a entrar no MasterChef e falar sobre esse assunto em um lugar onde a manteiga, o creme de leite a proteína animal reinam.

 

Por fim, te convido a pensar: onde a causa animal e onde o seu ego entram na história? Queremos provar que estamos certos pelos animais ou para nos sentirmos melhores? Nós pregamos por um veganismo cheio de culpa e frustrações ou com compaixão e amor?

 

Por mais respeito ao tempo do outro, os seus ciclos e sua força de vontade. Por mais reconhecimento ao entender que o outro está fazendo o possível dentro da sua rotina e limitações. Por mais empatia ✨

 

Qual é a sua opinião sobre o curioso caso da vegana no MasterChef? Compartilha comigo nos comentários, vou adorar saber 😊

 

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20 abril, 2016

babacas com boas referências

Preparem-se: esse post é um desabafo.

 

Normalmente, na primeira aula de um professor, sempre rola uma dinâmica básica: seu nome, o que você gosta, quantos anos você tem, porque escolheu o curso… E até aí, tudo bem. Mas entre em uma sala de jornalismo (e tantas outras salas simbólicas) e pergunte “qual o seu livro ou filme favorito?”. Aí de mim se responder Miley Cyrus e High School Musical. Ops. Quer dizer, aí nada! Demorei dois anos para desconstruir isso e entender que, não, mon amour, você não é melhor porque seu livro preferido é do Nietzsche – que, inclusive, eu precisei pesquisar para escrever.

 

Acho ótimo você se interessar pelos clássicos, Samuel Beckett, filmes independentes, Kubrick, e todo esse blábláblá underground, fora da indústria cultural (como eu cansei de escutar isso no jornalismo, socorro!), alternativo, que não tem espaço na mass media. Cara, parabéns, sério mesmo. Eu também tenho o meu lado que procura, analisa e tem curiosidade por coisas diferentes. Só que entenda uma coisa, é simples, eu juro. Dane-se. Ninguém quer saber. Ninguém se importa. Você não subiu dois degraus na escada da vitória por entender Kafka e escutar só MPB.

 

Eu entendo que temos gostos diferentes. Eu gosto de pop, você de rock. Eu gosto de terror, você de drama. O problema, no entanto, começa quando você subestima e inferioriza outras pessoas porque elas gostam de One Direction, livros chick-lit ou filmes de comédia romântica com a Jennifer Aniston. Quando você chama essas pessoas de alienadas ou diz que elas não têm cultura.

 

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11 abril, 2016

Não me leve a mal se você é um homem e está lendo isso, mas eu não quero e não preciso de feministos na minha luta. Também não venha com comentários agressivos, lembre-se de que esse não é o seu lugar de fala (tem um post sobre isso aqui). E, aliás, meu feminismo não é para te agradar. Agora, para você, homem que está aberto a entender e manas que ainda estão em dúvida, que desejam saber um pouco mais sobre esse posicionamento ou gostam de ler sobre feminismo, vem cá, vamos conversar!

Homem no meu feminismo - homem pró-feminismo

Há quatro anos, quando eu descobri o movimento eu pensava que deveríamos todos nos unir em prol da igualdade de gênero. Mas meu feminismo mudou com o tempo, minhas ideias foram amadurecendo, eu li muito, questionei muito e desconstruí muito. Como contei em outro post, hoje, eu penso que, ao invés de igualdade, precisamos de equidade e que não existem homens feministas, assim como não existem mulheres machistas.

 

Por que você vai chamar de feminista e dar tanto espaço dentro do movimento para aqueles não são vítimas do machismo? Como o feminismo seria para todos se um gênero é privilegiado e o outro é oprimido? Por que eu dividiria o meu protagonismo com o opressor? Desculpem, mas já não basta todos os privilégios que eles têm? Já não basta estar acima das mulheres em todas as esferas, política, social e econômica? Eu me sinto ainda mais oprimida quando alguém me diz que homens também devem ter um lugar no feminismo.

 

Talvez, muitos agora discordem de mim nesse ponto e, tudo bem, opiniões divergem. Mas, para mim, todo homem cis é machista (ainda estou amadurecendo a ideia sobre homens trans). Ele já nasce com os privilégios do seu gênero e nunca vai saber como é ser oprimido pelo machismo. Não adianta. Reconhecer esses privilégios, desconstruir comportamentos e pensamentos é o mínimo que você, homem, pode fazer. No entanto, mesmo assim, você continua fazendo parte do grupo opressor. Quando você é promovido e ganha 30% a mais que a sua colega na mesma posição, não foi uma escolha sua como individuo, mas a sociedade lhe colocou nessa posição. Assim como eu não escolhi ser oprimida, você não escolheu, mas é machista.

 

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